Uma dentista que decidiu vender a própria cadeira de consultório para apostar em uma ideia inovadora se tornou uma das maiores referências de branding e inovação do Brasil. Como isso aconteceu?
Nesta entrevista exclusiva, Cris Arcangeli, a mente visionária por trás da criação da categoria global de aliméticos (alimentos com colágeno), compartilha os bastidores de uma trajetória marcada pela coragem de antecipar tendências antes mesmo de o público saber que precisava delas. Famosa por sua atuação estratégica como investidora no Shark Tank e por fundar marcas que redefiniram o setor de beleza e moda, Cris revela como a inquietude e a observação constante são os motores para transformar “dores” do mercado em negócios memoráveis.
Se você deseja entender como equilibrar alta performance com propósito e descobrir por que ela acredita que liderar é, acima de tudo, inspirar pessoas através da própria consistência, as próximas linhas trazem lições indispensáveis de quem nunca teve medo de ser pioneira.
Cris Arcangeli sobre Identificar Tendências e Liderar de Maneira Inspiradora
1. Você começou sua carreira como dentista. O que te fez dar esse salto corajoso para o universo do empreendedorismo?
CA: Eu sou movida a desafios e gosto de fazer coisas diferentes. Minha vida sempre foi pautada pela transformação, e já passei por algumas reinvenções. Quando atuava como dentista, já havia superado os desafios que me propus e atingido os objetivos que queria. Então pensei: “posso fazer outras coisas, mas o quê?” Foi aí que tive uma ideia: a descoberta da homeopatia que eu usava para tratar canal poderia também ser aplicada no tratamento capilar. Naquela época não havia nada natural no mercado. Resolvi testar. Fizemos alguns estudos laboratoriais e funcionou. Essa ideia deu origem à Phytoervas. Para financiar o projeto, vendi minha cadeira de dentista e apostei tudo na criação desse novo negócio.
2. O que te moveu ao longo dessas décadas de inovação e reinvenção em diferentes negócios?
CA: O que sempre me moveu foi a inquietude e a capacidade de observação. Estou constantemente atenta, observando e identificando novas dores. E, quando enxergo uma dor, sinto a necessidade de criar algo para resolvê-la. Sempre foi assim. Acredito que o que nos impulsiona é justamente essa combinação: inquietude, observação e a vontade incessante de fazer mais, melhor e de um jeito diferente.
3. Como você enxerga o papel da fé, propósito ou intuição nas decisões empreendedoras?
CA: A fé é fundamental, porque é ela que faz a vida acontecer. A esperança, a vontade, o querer e o agir são todos alimentados pela crença. Sempre digo que a crença alimenta a ação, a ação gera resultados e os resultados fortalecem a crença. É um ciclo. O propósito também é essencial. Para mim, uma empresa precisa transformar a vida de alguém para melhor. O propósito é sempre voltado para o outro. Por isso, todos os meus negócios nasceram com muito conceito e muito propósito. Se não houver esses dois elementos, eu simplesmente não faço.
4. Qual foi o maior desafio ao educar o consumidor para ideias tão inovadoras?
CA: O maior desafio é o timing. Quanto mais cedo você inova, quanto mais traz uma ideia que ainda não está no inconsciente coletivo, mais difícil e trabalhoso se torna. Eu costumo comparar a inovação à arrebentação do mar. Quando você entra, existem ondas de diferentes tamanhos. Se sua inovação surge muito antes da compreensão do consumidor, a onda é alta: você passa muito tempo tomando caldo, engolindo água e esperando chegar ao outro lado. Já quando a inovação é mais fácil de compreender, ou quando resolve uma dor já clara, a arrebentação é menor, a onda é mais baixa, e você atravessa mais rápido. E todos sabemos: quando se chega ao outro lado, encontra-se o mar azul. Toda inovação busca exatamente isso. Por isso, o segredo está no timing e em entender a necessidade real das pessoas.
5. Para você, o que é uma marca inesquecível? Quais ingredientes não podem faltar?
CA: Uma marca se conecta sempre pela emoção. Ela precisa dialogar com o dia a dia das pessoas e resolver uma dor de forma que gere satisfação. O que a torna inesquecível não é apenas o produto ou serviço em si, mas o impacto emocional que provoca: pode ser um momento marcante de uso ou a solução de um problema que trouxe alívio e felicidade. No fim das contas, a conexão verdadeira com a marca vem sempre pela emoção.
6. Como é, para você, equilibrar performance, bem-estar e liderança?
CA: Para mim, performance, bem-estar e liderança caminham juntos. A performance vem do treino: dedicação e disciplina que levam à alta performance, e isso naturalmente gera bem-estar. Já a liderança surge da capacidade de inspirar pessoas. Mas, acima de tudo, vem de ter clareza do que você está fazendo. As pessoas seguem quem realmente acredita no que constrói. Se você não confia no que faz, dificilmente será seguido. Liderar não é apenas sobre o que você faz pelos outros, mas sobre o que constrói em si mesmo com tanta consistência e força que atrai pessoas para caminharem ao seu lado.
7. Qual seu maior aprendizado como investidora no Shark Tank?
CA: O Shark Tank me ensinou a lidar com expectativas. Quando um empreendedor vai ao programa, ele está apaixonado pela ideia, acredita profundamente no negócio e busca apoio para crescer. O grande desafio sempre foi dizer não sem desmotivar. Mostrar que não é o momento certo, explicar os motivos e indicar o que precisa ser feito para que, no futuro, a oportunidade possa acontecer. Para mim, o mais importante é que o empreendedor não desista do seu sonho apenas porque ouviu um não.
8. Na sua visão, o que é essencial para identificar tendências e transformar ideias em negócios inovadores que realmente antecipem as necessidades das pessoas?
CA: Tudo começa pelo mindset. Um mindset inovador questiona o status quo: por que é assim? Por que não pode ser diferente? Por que não serve para outra coisa? Quando você faz essas perguntas e busca respostas, percebe que pode criar negócios diferentes para atender necessidades ainda não supridas. Identificar tendências exige estudo de futurismo, observação do mercado e a capacidade de antecipar o que as pessoas vão precisar, muitas vezes antes delas mesmas perceberem. A curiosidade, a observação e o estudo de cenários futuros permitem enxergar oportunidades que ainda não são tão visíveis.
9. Qual legado você deseja deixar para as próximas gerações de empreendedores?
CA: Eu ainda não morri, então meu legado não está pronto. Tenho muita coisa em construção. Já deixei alguns legados: inovação, transformação, negócios de impacto positivo, apoio ao crescimento das mulheres. Criei novas ideias, desenvolvi produtos naturais, introduzi a categoria dos colágenos, fundei a Semana de Moda do Brasil, lancei estilistas, trouxe marcas internacionais para o país e abri mercados. Mas espero deixar muito mais. Ainda tenho muito a construir.
10. O que ainda te desafia? Há novos projetos ou sonhos que ainda quer realizar?
CA: Eu sou inquieta, sempre em busca de novos desafios. Hoje, o que mais me incomoda é a política brasileira. Ao olhar para minha trajetória, vejo que minha vida e a de muitos empreendedores foi profundamente impactada por questões políticas e econômicas. Penso: com minha criatividade e capacidade de empreender, se estivesse em outro país, até onde teria chegado?
O Brasil, em vez de apoiar, muitas vezes atrapalha quem quer construir. Por isso, acredito que, para melhorar a vida dos empreendedores e das pessoas, precisamos melhorar a economia e a política. Assim como já apoiei tantos mercados e empreendedores, sinto que agora é hora de encontrar uma forma de também contribuir para essa transformação. Ainda não sei exatamente como, mas tenho o sonho de deixar um legado nessa área.
11. Que dica você daria aos empreendedores que desejam inovar com propósito, e não apenas por modismo?
CA: Essa é a pergunta de um milhão de dólares! Como diferenciar uma tendência de um modismo? O modismo cresce rápido, vende muito em pouco tempo e desaparece. Já uma tendência se constrói de forma gradual, consistente e, ao mesmo tempo, abre caminho para novos mercados. Isso sim é inovação duradoura. Para identificar a diferença, eu recomendo sempre buscar a orientação de um mentor. Alguém com experiência, capaz de enxergar, seja por vivência, conhecimento ou intuição, o que tem futuro e o que não passa de uma onda passageira. Muitas vezes, olhei para ideias e pensei: “isso é modismo, vai acabar logo”. E, de fato, acertei.

















