Entrevistada por Fátima Reis

1. Sua trajetória une sucesso empresarial e impacto social. Em que momento você percebeu que sua missão ia além dos negócios?
AA: Eu aprendi a fazer o bem desde pequena, com a minha mãe, Guiomar de Oliveira Albanesi. Aprendi muito cedo a olhar para o próximo. Construí minha trajetória como empresária, mas sempre mantive esse olhar humano.
Em 1993, fiz minha primeira viagem ao Sertão nordestino com 20 amigos e 1.500 cestas básicas. Encontrei um Brasil que eu não imaginava que existisse. Famílias vivendo em casas de barro, sem água, sem alimento e, principalmente, sem ter a quem pedir ajuda. Depois do que vi e senti, nunca mais fui a mesma.
Durante muitos anos, conciliei minha empresa com o trabalho dos Amigos do Bem. Os dois cresceram muito, até que chegou um momento em que precisei fazer uma escolha, a mais difícil da minha vida. Vendi a empresa que havia construído e que era líder de mercado para me dedicar integralmente e de forma voluntária aos Amigos do Bem.
Foi uma decisão muito difícil, mas eu sabia que tinha encontrado a minha missão.
2. Quais foram os maiores desafios que enfrentou como mulher empreendedora em um mercado tradicionalmente masculino?
AA: Comecei muito jovem, em um mercado predominantemente masculino. Mas nunca deixei que isso me intimidasse. Eu trabalhava muito e procurava conhecer profundamente o meu negócio. Minha atenção estava em realizar, superar os desafios e alcançar os meus objetivos.
Ao longo da vida, ouvi muitas vezes que alguma coisa era difícil demais ou arriscada demais. Mas nunca aceitei que os outros determinassem até onde eu poderia chegar.
Talvez esse tenha sido um dos meus maiores aprendizados: acreditar nas minhas escolhas e ter coragem para seguir, mesmo quando as respostas ainda não eram óbvias — nem para mim, nem para os outros.
3. O que a experiência no sertão nordestino despertou em você como empresária e como ser humano?
AA: O Sertão me ensinou muito sobre resiliência, fé e confiança em Deus, mesmo diante das maiores adversidades. Aprendi muito com as famílias, com a força que elas têm para seguir em frente mesmo quando falta quase tudo.
Ao longo de mais de três décadas de trabalho, acertamos, erramos e aprendemos muito. Mas nunca perdemos o nosso propósito e os nossos valores. As famílias do Sertão e suas reais necessidades sempre estiveram no centro de todas as nossas decisões.
Essa experiência também fortaleceu o meu olhar para o ser humano. Aprendi que, para transformar de verdade, é preciso conhecer profundamente a realidade do outro, ouvir, compreender e agir. É preciso unir amor e eficiência para que a transformação aconteça.
4. Muitos empresários desejam crescer financeiramente, mas poucos conseguem construir legado. O que significa legado para você?
AA: Acho que todos nós, em algum momento, precisamos nos perguntar: o que eu quero deixar para o mundo?
Tenho muito orgulho da minha trajetória empresarial. Construí uma empresa líder de mercado, viajei o mundo, trabalhei muito. Mas hoje poucas coisas me emocionam tanto quanto encontrar um jovem que conheci criança no Sertão e vê-lo formado, trabalhando, construindo uma vida completamente diferente daquela que parecia destinada a ele, sem fome e sem perspectivas.
Legado, para mim, é aquilo que fica na vida das pessoas.
Um dia todos nós vamos embora. Os bens ficam, as empresas seguem seus caminhos. Mas aquilo que você fez na vida de alguém permanece. E todos nós podemos deixar algum legado.
5. Como equilibrar resultados financeiros com propósito social sem perder competitividade no mercado?
AA: Eu não acredito que uma coisa exclua a outra. Uma empresa precisa dar resultado. Precisa ser eficiente, inovadora, competitiva.
Propósito não substitui gestão.
Quando fui para o terceiro setor, levei comigo tudo o que havia aprendido como empresária. Os Amigos do Bem têm metas, processos, indicadores, governança, auditoria e avaliação de impacto.
Eu costumo dizer que a base é o amor, mas sem gestão nada se sustenta.
Quando alguém coloca um recurso nas nossas mãos, seja uma empresa ou uma pessoa que faz sua doação mensal, nós temos uma responsabilidade enorme. Aquele recurso precisa se transformar em educação, alimento, trabalho e oportunidades a quem mais precisa.

6. Qual foi a decisão mais difícil da sua carreira e o que ela ensinou sobre liderança?
AA: Sem dúvida, uma das mais difíceis foi vender a minha empresa.
A FLC era uma empresa que eu tinha criado e que havia se tornado líder de mercado. Era uma parte enorme da minha vida. Durante muitos anos conciliei empresa, filhos, casa, viagens à China e o trabalho no Sertão. Chegou um momento em que percebi que precisava escolher.
Em 2014, vendi a empresa para me dedicar integralmente e de forma voluntária aos Amigos do Bem. Eu assinei aquele contrato chorando. Não porque estivesse arrependida, mas porque estava encerrando um ciclo muito importante da minha vida.
Ao mesmo tempo, tinha uma tranquilidade muito grande dentro de mim. Eu sentia que precisava devolver à vida um pouco do muito que ela tinha me dado.
Talvez essa tenha sido uma das maiores lições sobre liderança: há momentos em que você precisa ter coragem para deixar algo que deu muito certo e seguir aquilo em que acredita.
7. Na sua visão, quais características definem um empreendedor preparado para os próximos anos?
AA: Acredito que um bom empreendedor precisa ter coragem, indignação, capacidade de inovar e, cada vez mais, um olhar humano.
Coragem para tomar decisões e seguir em frente mesmo quando não tem todas as respostas. Indignação para não se conformar com aquilo que pode ser melhor. Inovação para enxergar novos caminhos e se reinventar diante das mudanças.
Mas acredito que, acima de tudo, o empreendedor precisa manter o olhar para as pessoas. Os negócios mudam, a tecnologia avança, mas no centro de qualquer transformação continuam estando as pessoas. Acredito no crescimento com a capacidade de enxergar o outro.
8. Você acredita que empresas têm responsabilidade social além da geração de empregos? Por quê?
AA: Gerar emprego já é uma contribuição enorme. Eu acredito profundamente no trabalho como instrumento de transformação. Não existe mudança econômica sem trabalho.
Mas as empresas podem fazer muito mais. Elas têm conhecimento, capacidade de gestão, pessoas, tecnologia, relacionamento e recursos que podem ajudar a enfrentar problemas enormes do nosso país.
Vejo isso todos os dias nos Amigos do Bem. Nós não teríamos chegado aonde chegamos sozinhos. Grande parte dessa transformação aconteceu porque empresas e pessoas decidiram caminhar conosco.
9. Quais erros mais impedem empresários de expandirem seus negócios de forma sustentável?
AA: Acredito que um dos maiores erros é querer crescer sem estar preparado para sustentar esse crescimento. Não existe crescimento consistente sem controles, processos, uma cultura forte e, principalmente, boas pessoas.
10. Depois de tantas conquistas, o que ainda move você diariamente?
O que ainda falta fazer.
AA: Hoje, quando olho para os Amigos do Bem e vejo 150 mil pessoas atendidas todos os meses, é claro que sinto uma alegria enorme. Mas eu conheço o Sertão. Sei que ainda existem milhões de famílias vivendo em extrema pobreza e crianças que nascem sem nenhuma oportunidade.
Quando vejo uma criança chegar às nossas escolas sem perspectiva e, alguns anos depois, encontro um jovem na universidade, trabalhando, acreditando e sendo um multiplicador do bem, sinto que tudo vale a pena.
O que me move é ver uma geração com futuro, rompendo um ciclo de miséria e abandono secular.

11. Você acaba de lançar o livro Coragem de Transformar – A escolha que mudou tudo. Por que decidiu contar sua história agora e o que espera despertar nas pessoas com o livro?
AA: Eu relutei muito para escrever esse livro. Não queria simplesmente contar as minhas conquistas. Queria que a minha trajetória, com tudo o que vivi e aprendi, e o trabalho de transformação que construímos ao longo desses anos pudessem, de alguma forma, inspirar outras pessoas.
Quando aceitei esse desafio, decidi contar os acertos, claro, mas também os erros, as dores, os medos, as escolhas difíceis e os momentos em que eu mesma não sabia por onde seguir.
Foram meses revisitando a minha vida e percebendo o quanto uma escolha pode mudar o rumo de uma história.
Se uma pessoa fechar esse livro acreditando um pouco mais em si mesma, com coragem para enfrentar uma dificuldade, fazer uma escolha ou transformar de alguma forma a vida de alguém, o livro já terá cumprido o seu papel.
12. A coragem está presente no título e em muitos momentos da sua trajetória. O que significa coragem para você — nos negócios, na vida e no trabalho social?
AA: Coragem não é ausência de medo. Eu tive medo muitas vezes. Tive dúvidas, errei, acertei.
Para mim, coragem é seguir apesar disso.
É tomar uma decisão mesmo quando você não tem todas as respostas. É cair e ter disposição para começar de novo.
Quando fomos pela primeira vez ao Sertão, não sabíamos nem direito onde estávamos indo. Tínhamos vontade de ajudar e começamos. E, ao longo do caminho, fomos aprendendo.
Eu aprendi que, quando você começa, o caminho vai se revelando.
13. Ao revisitar sua trajetória para escrever o livro, houve alguma descoberta sobre você mesma ou alguma experiência que ganhou um significado diferente?
Escrever o livro me obrigou a parar.
AA: E percebi que muitos momentos que, quando aconteceram, pareciam grandes problemas foram justamente os que mudaram o rumo da minha vida. Também percebi quantas vezes precisei recomeçar.
Talvez uma das coisas mais inspiradoras tenha sido entender que a coragem não apareceu pronta em mim. Ela foi sendo construída. Uma escolha, um erro, um recomeço de cada vez.
14. Que conselho daria para mulheres que desejam empreender, liderar e ocupar espaços de destaque?
AA: Acreditem na própria capacidade.
Durante a minha vida, ouvi muitas vezes que alguma coisa era difícil demais, arriscada demais, que eu deveria parar um pouco. Ainda bem que sempre ouvi a minha intuição. Ela serve de bússola pra mim até hoje.
Não esperem que todo mundo acredite primeiro. Às vezes, você vai precisar acreditar em você antes que os outros consigam enxergar aquilo que você está enxergando. Siga, confie.
15. Que mensagem deixaria para os empreendedores brasileiros sobre impacto, liderança e humanidade?
AA: O empreendedor tem uma força extraordinária de transformação. Nós somos treinados pela vida a enxergar problemas, encontrar soluções, reunir pessoas, enfrentar dificuldades e fazer acontecer.
Imagine se uma parte dessa capacidade também estiver voltada para os grandes desafios do nosso país.
E não precisa começar grande. Os Amigos do Bem começaram com 20 amigos, 1.500 cestas básicas e muita vontade de ajudar. Não tínhamos estrutura, não tínhamos conhecimento sobre o terceiro setor e não imaginávamos onde aquilo chegaria.
Eu acredito que a indignação precisa vir acompanhada de ação. Não adianta apenas olhar para uma realidade e dizer que ela precisa mudar.
Comece com aquilo que você tem. Com o seu conhecimento, o seu tempo, a sua empresa, a sua capacidade de mobilizar pessoas. Porque o bem não transforma apenas quem recebe. Ele transforma profundamente quem decide realizar.




Alcione Albanesi
Empresária | Filantropa | Fundadora e presidente voluntária dos Amigos do Bem
Instagram: @amigosdobem

















