Por Rosely Boschini
Existe uma característica que costuma diferenciar líderes que conseguem atravessar crises daqueles que ficam paralisados e se veem soterrados:
A capacidade de continuar enxergando possibilidades em tempos difíceis quando todos os outros enxergam apenas limitações.
Quando estamos em momentos de maré alta, vendo um crescimento acelerado do negócio, muitas decisões parecem mais simples de serem enxergadas e tomadas. Há recursos disponíveis, margem para testar novos caminhos e espaço para corrigir erros. Muitos acabam confundindo essa facilidade com a crença de que estão realizando todo o seu potencial. Mas é quando o cenário se torna mais desafiador que as verdadeiras qualidades da liderança realmente aparecem.
Ao longo dos anos, acompanhando empresários, especialistas e organizações dos mais diversos segmentos, percebi que as maiores transformações raramente surgem da abundância. Elas costumam nascer da necessidade de olhar para um problema de uma forma diferente.E isso exige algo que vai muito além de controle, planejamento ou gestão. Exige criatividade.
Liderar também é proteger e nutrir o espaço da criatividade dentro do seu negócio. Criar ambientes em que as ideias possam respirar e encontrar seu real valor, ao invés de serem moldadas em uma noção que já veio pré-concebida. Porque muitas vezes aquilo que parecia inviável apenas precisava ser pensado por outro ângulo.
Vi isso muitas vezes na minha trajetória. Os negócios que se fortalecem em períodos de escassez não são os que simplesmente cortam custos e pessoas. São os que revisitam suas estruturas com inteligência, questionam hábitos, simplificam excessos, escutam melhor seus colaboradores e seus clientes, e redesenham processos.
Um detalhe ajustado pode alterar todo o resultado. Uma pergunta nova pode economizar meses de estratégia e execução na direção errada. Um olhar externo pode revelar soluções que estavam diante de todos, mas invisíveis pela rotina.
É por isso que eu acredito tanto em repertório.
O poder da criatividade na escassez
Quanto mais referências você acumula, mais alternativas enxerga quando o caminho estreita. Liderar exige fazer uma leitura constante do cenário, dentro e fora do negócio. Talvez seja justamente por isso que a leitura continua sendo uma ferramenta tão poderosa para quem lidera.
A leitura amplia o repertório sem exigir que vivamos todas as experiências pessoalmente. Ela nos permite acessar erros, acertos, estratégias e visões de mundo construídas por pessoas que percorreram caminhos completamente diferentes dos nossos.
Quando lemos, ampliamos nossa capacidade de fazer conexões. Um líder que só conhece o próprio setor empobrece suas respostas. Um líder que transita entre experiências diferentes cria soluções que os outros ainda não conseguem ver. E muitas vezes uma boa liderança nasce exatamente dessa habilidade: conectar ideias que aparentemente não tinham relação entre si.
Os líderes mais preparados para o futuro não serão necessariamente aqueles que possuem mais recursos. Serão aqueles que souberem enxergar mais longe e tiverem a disciplina de construir, ao longo do tempo, o repertório necessário para transformar restrição em reinvenção.
Eu sempre digo: criatividade não é talento. É repertório construído de maneira intencional.
A pergunta que fica não é se o seu cenário vai ficar mais desafiador. É se você vai estar preparado para enxergar, nesse momento, o que os outros ainda não conseguem ver.
Rosely Boschini
CEO Editora Gente
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