Por Priscila Queiroz

Tenho ouvido, com frequência, relatos de empresários que se sentem pressionados pelas exigências da legislação trabalhista, especialmente diante das atualizações da NR-01, que ampliam a atenção sobre os riscos psicossociais relacionados ao trabalho e, consequentemente, sobre a saúde no ambiente corporativo.
Ao nos remetermos ao período da pandemia, percebemos que muitas das transformações no mundo do trabalho já eram previstas por organismos e instituições internacionais. Temas que antes não recebiam a devida atenção no ambiente corporativo tornaram-se indispensáveis — entre eles, a saúde mental nas empresas.
É verdade que a NR-01 trouxe muitas dúvidas para o empresário que, mesmo contando com o apoio de profissionais especializados, pode enxergar a adequação como “mais uma demanda” a ser assumida.
Mas essa é uma pauta que pode ser adiada? Não seria recomendável. Empresários, lideranças e equipes trabalham em ritmos cada vez mais acelerados, pressionados pela busca constante por produtividade e resultados — muitas vezes, chegando à exaustão.
Em algum momento, o piloto automático foi acionado, e parece que ninguém mais sabe onde está o botão para desligá-lo ou, ao menos, desacelerar. As consequências aparecem tanto na esfera individual quanto na organizacional: absenteísmo relacionado a problemas de saúde, presenteísmo e sobrecarga das equipes. Quando alguém se afasta, outros profissionais absorvem suas responsabilidades, aumentando a pressão e alimentando um ciclo que tende a se repetir.
O empresário e as lideranças, por sua vez, cobram mais produtividade, mas frequentemente também estão sobrecarregados.
A atualização da NR-01 reforçou a necessidade de olhar para os riscos psicossociais relacionados ao trabalho, tema que já dialogava com aspectos abordados pela NR-17. Com o crescimento dos afastamentos e dos problemas relacionados à saúde mental, essa discussão ganhou ainda mais relevância.
Mais do que atender a uma exigência normativa, trata-se de reconhecer a necessidade de recuperar equilíbrio, consciência e moderação no ritmo de trabalho, compreendendo que preservar a saúde das pessoas também é fundamental para a sustentabilidade e o crescimento das organizações.
Sair do piloto automático sozinho pode ser desafiador — do nível operacional à alta liderança. Nem sempre é fácil perceber ou interromper o “trem desgovernado” em que a rotina profissional pode se transformar.
Talvez seja justamente essa uma das reflexões mais importantes desse novo momento: a legislação não precisa ser vista apenas como uma obrigação. Ela também pode ser um convite para que empresas e lideranças retomem a consciência sobre a forma como estão trabalhando, liderando e cuidando das pessoas.
Priscila Queiroz
Sócia da Evolutio Desenvolvimento Humano | Psicóloga | Consultora em Gestão | Estrategista em Pessoas
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