Ecossistemas Empresariais: A Nova Economia não será construída por empresas isoladas

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Por Cláudio Santos

Durante décadas, fomos ensinados a construir empresas olhando essencialmente para dentro.

Desenvolver o melhor produto. Contratar bons profissionais. Criar estruturas comerciais eficientes. Proteger conhecimento. Controlar processos. Investir em tecnologia. Ganhar mercado. Superar concorrentes. Tudo isso continua importante. Mas acredito que já não é suficiente.

Estamos entrando em um novo momento da economia, no qual a capacidade de uma empresa se conectar pode ser tão estratégica quanto aquilo que ela consegue produzir sozinha.

Tenho observado esse movimento de forma cada vez mais clara no ambiente empresarial. Conhecimento, capital, tecnologia e oportunidades circulam em uma velocidade extraordinária. E, nesse cenário, as organizações mais preparadas não serão necessariamente aquelas que possuem tudo dentro de casa.

Serão aquelas que souberem acessar, conectar e mobilizar competências.

É nesse contexto que os ecossistemas empresariais deixam de ser apenas uma tendência e passam a representar, na minha visão, uma nova arquitetura para os negócios.

E faço questão de estabelecer uma diferença importante: quando falo em ecossistema, não estou falando simplesmente de networking. Não estou falando de participar de eventos, integrar grupos empresariais ou possuir uma agenda cheia de contatos.

Um verdadeiro ecossistema empresarial nasce quando empresas, profissionais, investidores, universidades, startups, governos e instituições conseguem combinar competências diferentes para criar valor e gerar oportunidades que dificilmente seriam construídas isoladamente. Essa mudança parece simples.

Mas acredito que ela transforma profundamente a maneira como precisamos pensar uma empresa.

DA COMPETIÇÃO À CONSTRUÇÃO CONJUNTA

Durante muito tempo, aprendemos a formular algumas perguntas estratégicas: Quem são meus concorrentes?

Como posso conquistar uma fatia maior do mercado?

Como protejo meu conhecimento? Como vendo mais do que os demais?

Essas perguntas continuam relevantes. Mas existe outra que considero cada vez mais importante: Com quem eu posso construir algo que sozinho levaria muito mais tempo para construir?

Para mim, essa é uma das grandes perguntas do empresário contemporâneo. As fronteiras tradicionais entre concorrentes, fornecedores, clientes e parceiros estão se tornando menos rígidas.

Um concorrente pode participar de um projeto conjunto. Um cliente pode se transformar em canal de distribuição. Um fornecedor pode colaborar no desenvolvimento de uma nova solução. Uma universidade pode fornecer pesquisa e tecnologia. Uma startup pode entregar velocidade de inovação.Um investidor pode contribuir não apenas com capital, mas também com relacionamento e acesso a novos mercados. O poder público pode participar da construção de ambientes econômicos favoráveis.E uma empresa aparentemente distante do nosso segmento pode abrir portas para um mercado que dificilmente alcançaríamos sozinhos.

Quando essas relações deixam de ser ocasionais e começam a funcionar de maneira articulada, temos um ecossistema empresarial.

O ATIVO QUE NÃO APARECE NO BALANÇO

Durante muito tempo, aprendemos a avaliar o valor de uma empresa pelos ativos que ela acumulava. Fábricas. Terrenos. Imóveis. Equipamentos. Capital. Propriedade intelectual. Tecnologia. Marcas. Carteiras de clientes. Todos continuam fundamentais.

Mas acredito que existe outro patrimônio empresarial, extremamente valioso, que raramente aparece nas demonstrações financeiras: a capacidade de conexão.

Quem essa empresa conhece?

A quais mercados consegue chegar?

Quais portas sua reputação consegue abrir?

Em quais ambientes empresariais está inserida?

Que conhecimentos consegue mobilizar?

Quanto tempo precisa para encontrar as competências necessárias quando uma nova oportunidade aparece?

Essas perguntas revelam outra dimensão do valor empresarial.

Uma companhia com 50 funcionários pode estar inserida em um ecossistema capaz de mobilizar centenas de profissionais, tecnologias, especialistas, investidores e organizações. Por isso, acredito que o tamanho da estrutura já não consegue, sozinho, demonstrar a verdadeira capacidade de execução de uma empresa.

Uma organização relativamente pequena, mas conectada a um ecossistema poderoso, pode possuir uma capacidade de realização muito superior ao tamanho aparente de sua estrutura.

A EMPRESA NÃO PRECISA MAIS SER DONA DE TUDO

Existe outra crença empresarial que considero importante revisitar: a ideia de que crescer significa necessariamente internalizar estruturas.

Durante décadas, quando uma empresa precisava de marketing, criava um departamento. Quando precisava de tecnologia, contratava uma equipe.

Quando queria entrar em outro mercado, montava uma nova estrutura. Os ecossistemas nos apresentam outra possibilidade. Uma empresa não precisa possuir todas as competências. Precisa saber acessá-las, combiná-las e integrá-las.

O marketing pode estar em uma organização parceira. A tecnologia, em outra. A educação e a formação profissional, em outra. O capital pode vir de investidores conectados ao ecossistema.

O conhecimento especializado pode estar em uma universidade. A distribuição pode ser realizada por uma companhia que já domina determinado mercado. A internacionalização pode acontecer com parceiros que já possuem presença, experiência e relacionamentos no país desejado.

Isso não diminui o papel da empresa. Pelo contrário. Transforma esse papel.

Além de executar, precisamos aprender a orquestrar competências.

E acredito que essa capacidade de orquestração será uma das grandes vantagens competitivas dos próximos anos.

AS FRONTEIRAS ENTRE OS SETORES ESTÃO DESAPARECENDO

Outra transformação que observo é que as empresas estão cada vez mais difíceis de serem classificadas dentro de uma única categoria.

Educação encontra tecnologia. Tecnologia encontra mercado imobiliário. Mercado imobiliário encontra hospitalidade. Hospitalidade encontra turismo. Turismo encontra gastronomia. Gastronomia encontra vinho. Vinho encontra experiências. Experiências encontram negócios. E negócios voltam a encontrar educação.

É justamente nessas interseções que vejo algumas das oportunidades mais interessantes surgirem. Por isso, acredito que as organizações mais preparadas para o futuro talvez não sejam aquelas que dominam exclusivamente um segmento, mas aquelas capazes de transitar por diferentes cadeias de valor.

A empresa do futuro poderá pertencer menos a um setor específico e mais a diferentes ecossistemas simultaneamente.

QUANDO A GEOGRAFIA DEIXA DE SER BARREIRA

Existe ainda outra dimensão fundamental nessa transformação: a geografia.

Durante grande parte da história empresarial, as conexões de uma organização estavam fortemente vinculadas ao território onde ela operava.

A tecnologia mudou radicalmente essa realidade.

Hoje, uma empresa pode nascer em Maceió, desenvolver tecnologia em São Paulo, estabelecer parcerias em Portugal, acessar investidores nos Estados Unidos e encontrar oportunidades de negócios nos Emirados Árabes Unidos.

Isso também muda, na minha visão, a maneira como devemos compreender a internacionalização. Internacionalizar não significa necessariamente abrir uma filial, montar uma grande estrutura ou possuir centenas de funcionários em outro país. Pode significar, antes de tudo, entrar em um ecossistema internacional.

Quando um empresário chega a um novo mercado conectado a hubs, investidores, empresas, universidades, governos e instituições locais, uma das maiores barreiras da internacionalização começa imediatamente a diminuir: a distância relacional.

E existe uma ideia que considero fundamental:

“A distância entre dois mercados não é medida apenas em quilômetros. É medida também pela quantidade de conexões existentes entre eles.”

Uma empresa pode estar fisicamente distante de determinado mercado e, ao mesmo tempo, extremamente próxima dele por causa das relações que construiu. Da mesma maneira, pode estar geograficamente próxima e comercialmente distante porque não conhece as pessoas, instituições e caminhos necessários para acessar as oportunidades existentes.

O EMPRESÁRIO DO FUTURO SERÁ UM ORQUESTRADOR

Essa nova arquitetura econômica também exige, na minha visão, uma transformação na liderança. Fomos preparados para administrar recursos, pessoas, capital, estoque, processos, estruturas, operações.

Tudo isso continuará essencial.

Mas precisamos acrescentar outra competência: administrar relações e oportunidades.

O empresário do futuro precisará conectar pontos aparentemente desconectados, perceber complementaridades, identificar quem pode ajudar quem, compreender onde existe capacidade ociosa e onde existe demanda.

Perceber que uma conversa aparentemente distante do seu negócio pode se transformar, meses depois, em uma parceria estratégica.

Por isso, ter uma grande rede de contatos não será suficiente. Para mim, existe uma diferença enorme entre conhecer pessoas e saber conectá-las para gerar valor.

Essa capacidade de articulação poderá definir uma nova geração de líderes empresariais.

GENEROSIDADE ESTRATÉGICA: GERAR VALOR PARA O OUTRO FORTALECE TODO O AMBIENTE

Existe, porém, uma condição essencial para que os ecossistemas funcionem.

Eles não podem ser construídos exclusivamente sobre interesses comerciais imediatos. Quando todos entram em uma comunidade empresarial fazendo apenas uma pergunta — “O que eu posso vender aqui?” — aquele ambiente rapidamente deixa de ser uma comunidade e se transforma em uma feira comercial.

Acredito que os ecossistemas mais consistentes funcionam a partir de outra pergunta:

“Que oportunidade eu consigo gerar para alguém deste ambiente?”

Eu chamo essa dinâmica de generosidade estratégica. Não estou falando de realizar favores esperando uma recompensa futura. Estou falando de compreender que, em ambientes baseados em confiança, quanto mais valor circula, mais valioso se torna o próprio ecossistema. Uma indicação pode gerar um contrato. Uma apresentação pode criar uma sociedade. Uma conversa pode aproximar um investidor de uma empresa.

Posso conectar duas pessoas e não participar financeiramente daquela negociação. Ainda assim, contribuo para aumentar a capacidade de geração de valor daquele ambiente.

E, ao fazer isso, também fortaleço minha posição dentro da rede. É assim que o capital relacional começa a adquirir importância econômica.

CONFIANÇA: UMA DAS GRANDES MOEDAS DA NOVA ECONOMIA

Quanto mais conectada se torna a economia, mais importante se torna a confiança.

Ecossistemas empresariais não funcionam apenas por contratos. Eles dependem de reputação. Quando recomendo uma empresa ou um profissional, estou colocando parte da minha própria credibilidade naquela indicação. Uma recomendação baseada em confiança reduz barreiras, encurta caminhos, acelera reuniões e facilita negociações.

É por isso que acredito que reputação e confiança ocuparão uma posição ainda mais estratégica nos negócios. Uma empresa pode comprar publicidade. Pode contratar tecnologia. Pode ampliar sua equipe. Pode adquirir equipamentos.

A EMPRESA DO FUTURO TALVEZ NÃO SEJA APENAS UMA EMPRESA

Quando observo todas essas transformações em conjunto, chego a uma provocação que considero importante.

Algumas das organizações mais relevantes das próximas décadas talvez não sejam apenas empresas no sentido tradicional.

Poderão ser plataformas, comunidades, hubs, redes e ecossistemas capazes de reunir diferentes organizações em torno de oportunidades compartilhadas.

É dentro dessa visão que tenho pensado a construção do Next Group.

Minha intenção vai além de simplesmente reunir diferentes negócios sob uma mesma estrutura. Quero contribuir para desenvolver um ambiente no qual educação, tecnologia, internacionalização, desenvolvimento empresarial, inovação e geração de negócios possam se conectar e potencializar umas às outras.

Porque aprendi que algumas das maiores oportunidades não pertencem exclusivamente a uma empresa. Elas surgem justamente no espaço entre empresas.

É nesse espaço que competências se encontram.

Onde um conhecimento encontra uma necessidade. Onde capital encontra uma oportunidade. Onde tecnologia encontra um mercado. Onde pessoas encontram projetos.

E onde relações podem se transformar em negócios.

DO “POSSUIR” PARA O “ACESSAR”

Talvez uma das maneiras mais claras de compreender essa transformação seja observar como nossas perguntas estratégicas estão mudando.

Durante muito tempo perguntamos:

“O que minha empresa possui?”

Agora precisamos também perguntar:

“O que minha empresa consegue mobilizar?”

Perguntávamos:

“Quem são meus concorrentes?”

Agora precisamos acrescentar:

“Quem pode construir comigo?”

Perguntávamos:

“Qual é o meu mercado?”

Talvez devamos perguntar:

“De quais ecossistemas minha empresa pode participar?”

E, durante muito tempo, perguntamos:

“Até onde minha organização consegue chegar?”

Hoje, acredito que existe uma pergunta ainda mais poderosa:

“Até onde podemos chegar juntos?”

Não estou defendendo o fim da competição. Também não acredito que estruturas, talentos, capital e tecnologia deixarão de ser importantes. O que estou dizendo é que a vantagem competitiva está adquirindo uma nova dimensão. No novo mundo dos negócios, vencer não dependerá apenas daquilo que existe dentro dos limites de uma empresa. Dependerá também daquilo que ela consegue acessar, conectar e mobilizar além deles. Estamos caminhando para uma economia mais interdependente, mais conectada e potencialmente mais global. E, diante de tudo o que tenho observado e construído ao longo da minha trajetória empresarial, chego a uma convicção:

ninguém precisa construir tudo sozinho.

Mas existe algo que todos nós precisaremos aprender: a construir juntos.

Cláudio Santos

Empresário | Autor best seller | Palestrante

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