O que Sun Tzu pode nos ensinar sobre coragem

Compartilhe este conteúdo!

Por Fabiane Maimone

Quando pensamos em A Arte da Guerra, é natural imaginar exércitos, inimigos, territórios e batalhas. Durante séculos, os ensinamentos de Sun Tzu atravessaram campos militares e chegaram às empresas como referência de estratégia, liderança e competição. Mas, quando aceitei o desafio de comentar essa obra, uma pergunta me acompanhou durante toda a escrita: e se a guerra mais importante da nossa vida não estiver acontecendo do lado de fora?

Foi a partir dessa provocação que comecei a enxergar Sun Tzu por outra perspectiva. Para mim, ele não escreveu apenas sobre guerra. Escreveu sobre a mente humana quando atravessa risco, incerteza e imprevisibilidade. E talvez seja justamente por isso que um tratado escrito há cerca de 2.500 anos continue tão atual. Mudaram as armas, os territórios e os adversários, mas continuamos travando batalhas para tomar decisões difíceis, sustentar limites, enfrentar inseguranças, abandonar caminhos que já não fazem sentido e não nos perder de quem somos no meio do barulho.

É nesse território que estratégia e coragem se encontram. Coragem sem estratégia pode se transformar em desgaste. Estratégia sem coragem pode terminar em paralisia. O que Sun Tzu nos oferece, quando transportamos seus princípios para a vida contemporânea, é algo muito mais interessante do que um conjunto de técnicas para vencer adversários: ele nos ensina a construir segurança antes de agir.

Essa talvez seja uma das maiores distorções sobre a coragem. Fomos acostumados a associá-la ao impulso, à ausência de medo, à pessoa que simplesmente vai. Eu defendo exatamente o contrário. Coragem não é impulso. Coragem é uma habilidade que pode ser treinada e nasce de um processo de construção de segurança. Quanto melhor compreendemos quem somos, o terreno em que estamos pisando, os recursos que possuímos e aquilo que estamos dispostos a sustentar, mais condições temos de agir apesar do medo. Este, aliás, é o pré-requisito para a coragem, não seu oposto. O oposto da coragem não é medo; é covardia.

A Primeira Lei de Sun Tzu, Fazendo Planos, começa justamente antes da ação. Antes de avançar, é preciso avaliar. Essa lógica é extremamente poderosa para o nosso encorajamento porque nos obriga a substituir a pergunta “tenho coragem para fazer isso?” por perguntas muito mais úteis: por que quero fazer isso? Essa decisão está alinhada ao que acredito? Que vida estou tentando construir? A coragem começa a ganhar consistência quando deixa de ser uma reação à circunstância e passa a servir a uma direção.

Em seguida, Sun Tzu nos conduz ao conhecimento. Uma das ideias mais conhecidas de sua obra é a importância de conhecer o inimigo e conhecer a si mesmo. Quando trazemos esse princípio para dentro, percebemos que muitas das batalhas que acreditamos travar contra o mundo são alimentadas por mecanismos internos que sequer conhecemos. Perfeccionismo, necessidade de aprovação, medo de rejeição, precipitação, insegurança, dificuldade de estabelecer limites. Tudo aquilo que não reconhecemos em nós ganha enorme poder sobre nossas decisões. Pensar estrategicamente exige a coragem de não buscar respostas fáceis para problemas complexos e de não substituir conhecimento e método por esforço entusiasmado.

Mas autoconhecimento, sozinho, não basta. É preciso estrutura. E essa é outra contribuição extraordinária de Sun Tzu para o encorajamento. O que funciona uma vez pode ser sorte; o que conseguimos repetir começa a se transformar em método. Coragem também precisa deixar de depender dos nossos dias bons. Se só consigo me posicionar quando estou confiante, se só consigo tomar uma decisão quando o cenário está favorável ou se só sustento meus limites quando não corro o risco de desagradar ninguém, ainda estou condicionando minha coragem às circunstâncias.

Foi estudando esse processo que compreendi que encorajamento não deveria ser tratado apenas como inspiração. Precisamos reconhecer nosso funcionamento mental, identificar nossos valores inegociáveis, nomear inseguranças, construir redes de apoio e conhecer as forças que sustentam nosso movimento. Quando transformamos esse percurso em estrutura, deixamos de esperar que a coragem apareça e começamos a criar as condições para acessá-la.

Outro ensinamento fundamental de Sun Tzu é que ninguém vence uma guerra sozinho. Essa ideia confronta uma imagem bastante romantizada da coragem: a do herói solitário, autossuficiente, que enfrenta tudo sem precisar de ninguém. Na prática, acontece justamente o contrário. Segurança também se constrói por meio de vínculos. Redes de apoio, inteligência compartilhada e aliados estratégicos não diminuem nossa força; ampliam nossa capacidade de agir. Pedir ajuda pode ser um gesto profundamente corajoso quando significa reconhecer que existe uma batalha importante demais para ser travada apenas com os recursos que temos. No livro, defendo que pertencimento não é um detalhe emocional, mas solo fértil da coragem.

Sun Tzu também nos ensina a observar o terreno, e talvez poucas competências sejam tão necessárias hoje quanto essa. Vivemos em uma cultura que valoriza respostas rápidas, opiniões imediatas e movimento constante. Parece que precisamos estar sempre fazendo alguma coisa para demonstrar que estamos avançando. Só que movimento sem direção também nos afasta do destino.

Ler o terreno significa compreender o momento antes de reagir a ele. Há situações em que coragem será avançar; em outras, esperar. Em algumas, insistir; em outras, abandonar. Há momentos em que coragem é dizer sim e outros em que ela se materializa justamente na capacidade de dizer não. O princípio estratégico por trás dessas escolhas é o mesmo: não existe uma resposta corajosa universal porque coragem não é repetir um comportamento, mas escolher conscientemente o comportamento adequado à realidade que se apresenta.

Essa lógica nos leva a um princípio que considero essencial: desapego. Para adaptar uma estratégia, precisamos estar dispostos a abandonar a estratégia anterior. Parece óbvio, mas não é. Quantas vezes continuamos insistindo em um projeto, relacionamento, carreira ou modelo de negócio não porque ainda faça sentido, mas porque já investimos demais nele? A adaptação exige flexibilidade, mas a flexibilidade só existe quando conseguimos desapegar daquilo que planejamos para enxergar aquilo que o presente está pedindo.

É por isso que, ao reinterpretar as leis de Sun Tzu, chego repetidamente à mesma palavra: clareza. Não precisamos necessariamente de mais força. Precisamos enxergar melhor. Clareza sobre quem somos, sobre o que queremos construir, sobre nossas vulnerabilidades, sobre o cenário, sobre quem pode caminhar conosco e sobre o preço das escolhas que estamos fazendo. É dessa clareza que nasce uma coragem menos barulhenta e muito mais consistente.

No livro, chamo esse processo de clareza corajosa. É a clareza que gera coragem, a coragem que produz movimento e o movimento que devolve poder pessoal. Não se trata da coragem cheia de adrenalina, mas daquela que nasce quando entendemos o terreno e percebemos que temos escolha.

E existe ainda uma última dimensão que acrescentei às treze leis de Sun Tzu: a Coragem Criativa. Porque nem toda batalha pode ser vencida da maneira como imaginávamos. Há acontecimentos que não conseguimos evitar, perdas que não podemos desfazer e circunstâncias sobre as quais não temos qualquer controle. Nessas situações, nossa possibilidade de ação está na capacidade de ressignificar o que aconteceu e transformar experiência em repertório, dor em direção e problema em matéria-prima para um próximo movimento. A Décima Quarta Lei nasce justamente da ideia de recuperar a autonomia de pensar com a própria cabeça e usar criatividade como coragem estratégica.

Talvez essa seja a maior contribuição de Sun Tzu para o nosso encorajamento: compreender que coragem não significa entrar em todas as guerras. Significa ter lucidez suficiente para saber quais batalhas merecem ser travadas, estratégia para escolher como enfrentá-las e segurança para sustentar a decisão tomada.

A vida continuará sendo contingente. Um telefonema muda tudo, uma perda reorganiza o mapa, uma oportunidade aparece quando não estávamos preparados. Não controlamos o que a vida coloca diante de nós, mas podemos ampliar nossa capacidade de escolher o que fazer com aquilo que nos acontece. É exatamente aí que a coragem deixa de ser uma característica de algumas pessoas e passa a ser uma possibilidade para todos nós.

Depois de mergulhar nas leis de um dos maiores estrategistas da história, cheguei a uma conclusão aparentemente simples: a maior vitória não está em derrotar o outro. Está em deixar de ser derrotado automaticamente pelos próprios medos, padrões e inseguranças. Porque a verdadeira arte da guerra talvez seja aprender a construir paz suficiente dentro de nós para escolher, com consciência, o próximo passo.


Fabiane Maimone acredita que a coragem é uma habilidade treinável. Esse é o insight norteador de todo o seu trabalho.

Além de autora do best-seller Mapa da coragem, é CEO da Coragem Company, ecossistema que oferece um caminho estruturado e multifacetado para que as pessoas desenvolvam a coragem como uma habilidade prática em suas vidas, por meio de um conteúdo inspirador, ferramentas práticas e experiências imersivas, visando transformação pessoal e profissional.

Em sua jornada, foi diretora-executiva de uma das maiores empresas de cenografia do país, responsável por cenários para empresas como TV Globo, Rock in Rio, Mauricio de Sousa e tantas outras, além de ter sido repórter de TV e ter se mudado trinta vezes entre cidades, estados e países. Essa experiência trouxe para ela aprofundamento no tema da criatividade como ferramenta de coragem.

Atualmente, Fabi palestra para milhares de pessoas dentro e fora do país, é TEDx Speaker e treinadora corporativa de líderes e times. Também criou a imersão Casa da Coragem, apresenta o “The Latvian Talks com Fabi Maimone” e o podcast “CoragemCast” no portal Terra. Seus livros, Mapa da coragem e Não faça o que eu fiz, ambos best-sellers, oferecem um guia prático para desenvolver a coragem e transformar vidas.

Acompanhe a autora:

Instagram: @fabimaimone
LinkedIn: Fabiane Maimone

Conteúdos Recentes

Leia Também

Tendências

Rolar para cima