Vitor Tavares. O homem que transformou livros em legado, negócios e pontes para o futuro

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Por Fátima Reis

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Em um país onde empreender exige coragem, resiliência e capacidade constante de reinvenção, Vitor Tavares construiu sua história em um dos segmentos mais desafiadores da economia brasileira: o mercado editorial.

Filho de caminhoneiro e criado na periferia de São Paulo ao lado de sete irmãos, aprendeu desde cedo que trabalho, disciplina e educação são os alicerces de qualquer conquista. Enquanto o pai passava longos períodos na estrada, foi sua mãe, filha de imigrantes italianos do interior paulista, quem conduziu a família com firmeza, transmitindo valores que moldariam seu caráter: dignidade, respeito ao próximo, honestidade e a importância do conhecimento.

O destino parecia anunciar sua vocação desde o nascimento. Vitor veio ao mundo em 23 de abril, data em que é celebrado o Dia Internacional do Livro. Décadas depois, transformaria essa coincidência em uma vida inteiramente dedicada à promoção da cultura, da leitura e do empreendedorismo.

Sua trajetória profissional teve início na década de 1980, como entregador em uma livraria no centro histórico de São Paulo. Em uma época em que a região reunia livrarias, cafés e intelectuais, encontrou muito mais do que um emprego: descobriu um propósito. Entre prateleiras repletas de histórias e o contato diário com leitores, compreendeu que os livros não apenas transmitem conhecimento, mas também conectam pessoas, despertam ideias e transformam destinos.

Movido pela visão empreendedora, decidiu deixar a estabilidade para fundar, ao lado de amigos, a Distribuidora Loyola. A empresa cresceu, conquistou reconhecimento nacional e consolidou-se como uma das principais referências na distribuição atacadista e varejista de livros no Brasil. Ao longo dessa jornada, enfrentou crises econômicas, mudanças políticas, profundas transformações no varejo, a falência de importantes redes livreiras e, mais recentemente, os impactos provocados pela pandemia.

Ainda assim, nunca deixou de acreditar na capacidade de reinventar o mercado e criar novas oportunidades.

Seu compromisso com o desenvolvimento do setor o levou à presidência da Associação Nacional de Livrarias e, posteriormente, da Câmara Brasileira do Livro, justamente em um dos momentos mais delicados da história do mercado editorial brasileiro. Sob sua liderança, importantes decisões foram tomadas para fortalecer o segmento e preservar um dos maiores patrimônios culturais do país.

Entre seus maiores desafios esteve a condução da Bienal Internacional do Livro de São Paulo durante a pandemia. Após um período de incertezas, a edição realizada na retomada tornou-se um marco para o setor, reunindo milhares de visitantes e simbolizando o reencontro do público com a literatura. O evento foi conduzido sob o slogan “Todo Mundo Sai Melhor do que Entrou”, consolidando-se como uma das edições mais emblemáticas da história da Bienal.

Aos 64 anos, Vitor permanece em plena atividade. Continua investindo na abertura de novas livrarias, na literatura infantil, no universo geek e em projetos editoriais por meio do selo Edições Fons Sapientiae — expressão em latim que significa “Fonte da Sabedoria”.

Mais do que comercializar livros, dedica-se a abrir portas para novos autores, incentivar a formação de leitores e fortalecer a cultura como instrumento de transformação social.

Sua trajetória demonstra que um legado não é construído em um único momento. Ele é escrito diariamente, por meio do trabalho, da coragem, da visão empreendedora e do compromisso permanente com as pessoas e com o conhecimento.

Entrevista

1. Você nasceu no Dia Internacional do Livro. Em algum momento da sua trajetória sentiu que sua história já estava, de certa forma, conectada ao universo da cultura e da leitura?

Sempre tive a sensação de que havia sido escolhido para trabalhar com livros. Ainda na adolescência, pouco antes de começar a trabalhar em uma livraria, despertei o gosto pela leitura por meio dos clássicos indicados pela escola. Muito cedo tive contato com autores como Machado de Assis, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa, Cecília Meireles, Erico Verissimo e Jorge Amado. Lembro que, com menos de 12 anos, já lia Capitães da Areia. De alguma forma, aquilo me fazia acreditar que eu havia nascido no dia certo.


2. Como foi crescer em uma família simples, com sete irmãos, na periferia de São Paulo, e de que forma os ensinamentos da sua mãe influenciaram o homem e o empresário que você se tornou?

Minha infância foi muito tranquila, dentro das possibilidades da época. Nunca nos faltou o essencial. Ajudávamos nos afazeres de casa, estudávamos em escola pública e tínhamos uma infância muito feliz, repleta de boas lembranças. A periferia de São Paulo, naquela época, era muito diferente da que conhecemos hoje. Era um lugar tranquilo, com muitos campos de futebol de várzea, onde passávamos boa parte do tempo jogando bola e andando de bicicleta.

Nossa mãe, Adélia, foi a grande responsável pela formação do nosso caráter. Costumo compará-la a uma leoa: protegia os filhos, mas também nos ensinava a caminhar com as próprias pernas. Ela deixou um legado extraordinário para toda a família.

Naquela época, entre as décadas de 1970 e 1990, conseguir emprego para jovens sem experiência era extremamente difícil. Então, minha mãe encontrou uma solução empreendedora. Montou uma pequena quitanda na garagem de casa, onde vendíamos de tudo. Ela mesma preparava doces, e nós cuidávamos das vendas — embora, de vez em quando, uma parte da produção fosse consumida pela equipe, afinal, ninguém é de ferro.

Foi ali que tive meus primeiros aprendizados sobre empreendedorismo. Aprendi a comprar bem, organizar o negócio, negociar com fornecedores, atender clientes e entender que vender bem é consequência de construir bons relacionamentos e gerar confiança.


3. Você começou como office boy em uma livraria no centro de São Paulo. Quais foram os aprendizados mais valiosos daquele período que ainda carrega na gestão dos seus negócios?

Um dos maiores aprendizados foi evitar, sempre que possível, uma postura negativa. Aprendi que palavras como “não dá”, “não tem”, “não chegou”, “não tenho tempo” ou “esqueci” devem dar lugar à busca por soluções. Pessoas negativas dificilmente prosperam e acabam contaminando todo o ambiente de trabalho.

Também tive a oportunidade de trabalhar com um diretor extremamente experiente, Jair Canizela, meu primeiro chefe. Ele tinha uma característica que levo comigo até hoje: diante de qualquer problema, por mais complexo que fosse, buscava rapidamente uma solução. Essa postura marcou profundamente minha forma de liderar e empreender.


4. O mercado editorial brasileiro passou por inúmeras crises ao longo das últimas décadas. O que fez você permanecer acreditando nesse setor mesmo diante de tantos desafios?

Acredito que foi justamente o tamanho do desafio que me motivou a continuar. Trabalhar com a cultura do livro no Brasil nunca foi fácil, mas sempre enxerguei a possibilidade de contribuir profissionalmente para ampliar o acesso à leitura e ajudar a melhorar os índices de leitura no país.

Mais do que atuar em um mercado, sempre senti que participava de uma missão: levar conhecimento às pessoas e fortalecer a cultura por meio dos livros.


5. Em determinado momento, você deixou a estabilidade para empreender. Como foi tomar essa decisão e quais medos precisou vencer naquele período?

Não foi uma decisão fácil. O medo sempre existe quando decidimos empreender. Naquela época, praticamente não tinha com quem buscar aconselhamento. Minha maior referência era minha mãe e, naturalmente, ela ficou receosa. Na visão dela, deixar um bom emprego na Editora Vozes para abrir um negócio próprio parecia um risco muito grande.

Mas o desejo de empreender sempre falou mais alto. Confiei na minha intuição, segui em frente e nunca me arrependi da decisão.

Empreender nunca foi fácil e continua não sendo. Todos os dias surgem novos desafios, mas acredito que é justamente essa capacidade de enfrentar dificuldades, aprender continuamente e encontrar soluções que torna o empreendedor cada vez mais forte.

6. A Distribuidora Loyola se tornou referência nacional. Qual foi o segredo para construir uma empresa sólida em um mercado tão competitivo e sensível às mudanças econômicas?

Acredito que o segredo sempre foi a combinação de muito trabalho, atualização constante e capacidade de acompanhar as transformações e tendências do mercado. Também considero fundamental formar uma equipe de bons colaboradores, manter o foco no cliente e cultivar relações baseadas no respeito e na confiança.

Outro ponto indispensável é manter o fluxo de caixa equilibrado e jamais abrir mão de uma gestão financeira responsável. Uma empresa precisa gerar resultados que cubram seus custos fixos e variáveis e garantam sua sustentabilidade. Sem vendas, sem rentabilidade e sem planejamento financeiro, qualquer negócio perde sua razão de existir.


7. Você presidiu a Associação Nacional de Livrarias e a Câmara Brasileira do Livro em momentos extremamente delicados para o setor. Qual foi a decisão mais difícil que precisou tomar durante essas gestões?

Foram anos muito desafiadores. Talvez a maior missão tenha sido manter os associados unidos e conscientizá-los sobre a importância de fortalecer as entidades representativas do setor. Sempre acreditei que, juntos, seríamos mais fortes para defender os interesses das livrarias, das editoras e de toda a cadeia do livro.

Trabalhamos para construir políticas comerciais mais equilibradas, respeitando todos os canais de venda, além de apoiar iniciativas legislativas importantes, como a Lei Cortez, que contribui para fortalecer as livrarias brasileiras.

Durante minha gestão na Câmara Brasileira do Livro, também conduzimos a homologação do ISBN (International Standard Book Number), conhecido como o “CPF do livro”, facilitando o trabalho dos editores brasileiros e modernizando processos fundamentais para o setor.

Essa experiência reforçou uma convicção que levo para toda a vida: empreender é encontrar soluções e resolver problemas em benefício do coletivo.


8. A pandemia impactou profundamente o mercado cultural. Como foi liderar a Bienal Internacional do Livro de São Paulo diante de um cenário tão incerto?

Foi um dos maiores desafios da minha trajetória. Houve momentos em que toda a equipe da Câmara Brasileira do Livro praticamente perdeu o sono. Tínhamos um planejamento sólido para a Bienal de 2020, com praticamente todos os espaços comercializados, mas fomos surpreendidos por um cenário de incertezas jamais vivido.

Diante daquela realidade, tomamos a difícil decisão de adiar a edição presencial e criar a primeira Bienal Internacional do Livro Virtual. O projeto foi um grande sucesso, reuniu milhares de participantes e acabou servindo de referência para diversos eventos literários realizados posteriormente.

A Bienal presencial aconteceu em 2022 e representou a retomada do setor. Batemos recordes de público, de expositores e de vendas. Um fato que sempre faço questão de destacar é o comprometimento das editoras. Cerca de 90% delas mantiveram seus contratos assinados em 2020 e continuaram honrando os pagamentos dos espaços durante os dois anos de adiamento.

Sou profundamente grato a esses empresários e editores. Se eles não tivessem acreditado na força da Bienal e na credibilidade da Câmara Brasileira do Livro, a instituição certamente enfrentaria uma situação financeira extremamente delicada.


9. Mesmo após décadas de trajetória, você continua abrindo novos negócios e investindo em novos formatos de livraria. O que ainda o move diariamente?

Continuo cercado de sócios e parceiros que compartilham o desejo de desenvolver novos projetos. Acredito que empreender é se desafiar constantemente e também estar disposto a ser provocado por novas ideias, novas tecnologias e novos modelos de negócio.

É essa busca permanente pela inovação que me motiva todos os dias.

Mas sempre faço uma ressalva: inovar não significa agir por impulso. É preciso manter os pés no chão, analisar cada cenário, planejar cuidadosamente e estudar muito antes de tomar qualquer decisão.


10. A Livraria Drummond nasceu também como um espaço para autores e editoras que precisavam de oportunidades. Qual é a importância de criar ambientes que incentivem novos talentos?

A Livraria Drummond foi mais um grande desafio da minha trajetória e continua em constante expansão. No período pós-pandemia, percebemos uma enorme carência de espaços dedicados ao lançamento de livros e ao encontro entre autores e leitores. Foi justamente para atender essa necessidade que a livraria nasceu.

Hoje, ela se tornou muito mais do que imaginávamos. Localizada no Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, consolidou-se como uma das principais livrarias de referência da cidade de São Paulo.

Realizamos eventos em cerca de 90% dos dias do ano. Em apenas quatro anos de funcionamento, já promovemos aproximadamente dois mil eventos, sendo que cerca de metade deles foi dedicada ao lançamento de autores estreantes.

Acredito que a Drummond vem cumprindo plenamente sua missão: abrir portas para novos escritores, incentivar a literatura e oferecer oportunidades para quem deseja compartilhar conhecimento por meio dos livros.

Independentemente de visões ideológicas, todos os apaixonados pela leitura são bem-vindos na Drummond. Nosso compromisso é oferecer um ambiente plural, acolhedor e um acervo rico, atualizado e capaz de atender aos mais diversos perfis de leitores.

11. Ao longo da sua trajetória, você conviveu com grandes intelectuais, escritores e empresários do setor cultural. Qual encontro ou experiência mais marcou sua visão sobre conhecimento e transformação humana?

Ao longo da minha trajetória, tive o privilégio de conhecer muitas personalidades que marcaram profundamente minha vida. Convivi com políticos, filósofos, teólogos, professores, juristas e grandes nomes do mercado editorial. Cada encontro trouxe aprendizados valiosos e contribuiu para minha formação pessoal e profissional.

Se tivesse que destacar algumas pessoas, começaria pela minha família e, em especial, pela minha esposa, Maria Rocha, que sempre esteve ao meu lado, tanto nos momentos de conquista quanto nos períodos mais difíceis da caminhada.

Também faço uma homenagem ao meu primeiro chefe, Jair Canizela (in memoriam), que foi um grande mestre e uma referência na minha formação profissional. Além dele, tive o privilégio de aprender com dois ex-presidentes da Câmara Brasileira do Livro, meus amigos Luiz Torelli e Rosely Bosquini. São pessoas que deixaram uma marca profunda na minha história e continuam sendo fontes de inspiração para minha atuação no universo do livro.


12. Você costuma dizer que empreender exige “matar um leão por dia”. Que conselho daria hoje para os jovens empreendedores que desejam construir negócios sólidos sem perder seus valores e sua essência?

Meu conselho é simples: planeje bem, tenha foco e respeite os processos. Nunca deixe de aprender, esteja sempre aberto ao novo e mantenha-se atualizado diante das constantes transformações do mercado.

Vivemos a era da Inteligência Artificial, uma ferramenta extraordinária, mas acredito que ela jamais substituirá a inteligência humana. A tecnologia existe para potencializar as capacidades das pessoas, nunca para substituir aquilo que é essencialmente humano.

Por isso, meu maior conselho é: valorize as pessoas. Respeitar o ser humano continuará sendo o maior diferencial de qualquer empreendedor.


13. Você fala muito sobre respeito às pessoas, aos processos e aos relacionamentos. Na sua visão, qual é o verdadeiro papel das conexões humanas no empreendedorismo?

Acredito que o verdadeiro papel das conexões humanas está na capacidade de compreender as pessoas, suas necessidades, seus sonhos e a forma como se relacionam no mundo atual.

Quando conseguimos entender o ser humano, empreender se torna menos difícil. No fim das contas, empresas existem para servir pessoas.

Por isso, costumo dizer que empreender é entender e atender pessoas.


14. Quando olha para toda a sua caminhada, da periferia ao protagonismo no mercado editorial brasileiro, qual legado deseja deixar para as próximas gerações?

Gostaria de ser lembrado como alguém que sempre empreendeu com equilíbrio, ética e respeito pelas pessoas.

Independentemente da posição que cada um ocupa na sociedade — seja uma grande liderança ou uma pessoa simples — todos exercem um papel importante na construção de um país melhor. Somos parte de um mesmo todo, e cada pessoa tem seu valor.

Esse é o legado que desejo deixar: mostrar que é possível empreender com propósito, contribuir para o desenvolvimento das pessoas e ajudar a construir uma sociedade mais justa, mais humana e mais consciente por meio do conhecimento e da educação.

Vitor Loyola

Diretor Geral

Livraria & Distribuidora Loyola

Instagram: @vitortavares1962 | @drummond.livraria | @distribuidoraloyola | @livrarialoyola

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